Humanidades

Estudo investiga relação entre longevidade de brasileiros supercentenários e miscigenação
Pesquisa busca preencher lacuna ao analisar material genético de brasileiros com mais de cem anos. Diversidade genética pode estar associada à longevidade e ao envelhecimento saudável
Por Amanda Nascimento - 10/01/2026


No Brasil, mais de 37 mil pessoas têm cem anos ou mais – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens


O que distingue quem passa dos 100 anos da maioria da população é uma das perguntas mais fascinantes da ciência. Parte da resposta, segundo um artigo publicado nesta terça-feira (6) na Genomic Psychiatry, está na diversidade genética presente na população brasileira. A hipótese é que a miscigenação seria um contribuinte para a longevidade e qualidade de vida observadas em centenários e supercentenários. 

A percepção veio a partir da coleta de dados clínicos e amostras biológicas de mais de 100 centenários, sendo 20 deles supercentenários, de diferentes origens sociais e culturais, distribuídos pelo Brasil. A equipe por trás da pesquisa integra o Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da USP (Genoma USP), liderado pela professora e geneticista Mayana Zatz. Juntos, eles fizeram a análise genômica e celular dos participantes da coorte, que incluiu indivíduos com alta funcionalidade e que sobreviveram à covid-19 quando ainda não havia vacina.  Os pesquisadores destacam que todos os resultados apresentados são considerados preliminares.

“O objetivo final do estudo é identificar quais são os fatores que determinam essa longevidade extrema. Sabemos que isso depende principalmente da genética e do perfil imunológico. Estamos identificando as variantes genéticas nesses centenários e estudando a sua função”, afirma Zatz. 

Segundo ela, a intenção é que os resultados ajudem outras pessoas a alcançarem a longevidade — mas sobretudo se mantendo saudáveis e com boa qualidade de vida. Agora, o próximo passo é investigar o perfil imunológico da amostra, com a colaboração da professora Ana Maria Caetano, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Os supercentenários representam uma amostra única da longevidade humana, sendo caracterizados por perfis imunológicos, genéticos e metabólicos resilientes contra o declínio associado ao envelhecimento. São essas propriedades que os autores acreditam que possam oferecer estratégias que estendam a expectativa de vida para todos. No Brasil, são mais de 37 mil pessoas com 100 anos ou mais, segundo o Censo de 2022, o que faz do País um potencial centro de pesquisa para entender a longevidade humana. Ainda assim, a maioria dos bancos de dados carece de amostras genéticas de populações miscigenadas, como a da população brasileira.

Sendo o Brasil o lugar de maior diversidade genética do mundo — resultado da mistura de diferentes povos, entre eles os europeus, os africanos e os indígenas —, os pesquisadores estão interessados em investigar essa lacuna. 

Como explica Mateus Vidigal, primeiro autor do artigo, “a literatura científica atual foca na população caucasiana. Alguns genes e variantes se replicam na nossa população, outros não, e novas variantes devem ser catalogadas por conta da miscigenação, que não foram vistas até então porque levavam em consideração uma população mais homogênea”.

O que também chama a atenção dos autores são as diferentes realidades desses grupos. “Comparando com a população europeia, os brasileiros são mais vulneráveis”, aponta Vidigal. “Na Europa, o idoso tem, por uma questão socioeconômica e de políticas públicas, maior acesso à medicina, o que o brasileiro tem uma grande carência, no geral. Mas, por outro lado, têm indivíduos no Brasil que passam dos 100 anos e mantêm o bem-estar mesmo sem acesso à saúde”, completa. A explicação para essa resistência, diz ele, mora na genética. 

Na visão de João Paulo Limongi França Guilherme, coautor do artigo, o estudo da população centenária miscigenada será algo extremamente valioso para o futuro, “para criar diretrizes para novas intervenções visando não só ao envelhecimento, mas ao envelhecimento com saúde”. Pesquisador no Genoma USP, ele adiciona que a equipe pretende coletar mais amostras por mais cinco anos, e que recrutam pessoas acima dos 95 anos, apesar da preferência pelos mais velhos.

O segredo na genética dos supercentenários

O estudo constatou que supercentenários são geneticamente distintos em alguns de seus mecanismos biológicos. Por exemplo, seus linfócitos de sangue periférico mantêm atividade proteassomal — responsável pela remoção de proteínas danificadas ou desnecessárias dentro das células —, comparável à de indivíduos mais jovens. Outra observação tem relação com os mecanismos de autofagia, processo natural de reciclagem celular, que permaneceram funcionais e regulados nesses indivíduos. 

Além disso, João Paulo Guilherme explica que há uma grande diferença na regulação de hormônios dos supercentenários. “Hormônios sinalizam ao organismo para que ele funcione adequadamente. Nesse caso, os hormônios que deveriam cair, como os de características sexuais, parecem ser mais preservados nessa população. E isso tem reflexo direto em uma série de células que deveriam cair junto com os hormônios”.

É com base nesses resultados que os autores defendem: o envelhecimento imunológico em supercentenários não deve ser visto como um declínio, mas sim como resiliência funcional. A pesquisa mobiliza o termo para descrever a estabilidade imunológica das funções celulares. “Enquanto é normal que a maioria da população com 70 e 80 anos tenha um declínio funcional, quando as células começam a ficar mais velhas e vão perdendo suas características naturais, os supercentenários não têm”, completa.  

“As células de supercentenários parecem ser células mais jovens, mais resistentes ao envelhecimento. O declínio dessas células não acontece como o esperado” – João Paulo Guilherme, Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da USP


No entanto, ainda que existam pontos de convergência na amostra do estudo, os pesquisadores notam que o estilo de vida de cada um desses indivíduos diverge. “Têm centenários que são lúcidos, ativos e independentes. Diversos participantes moram sozinhos, alguns fazem atividade física”, exemplifica Mateus Vidigal. O inverso também se aplica: “tem a parcela que não tem hábitos saudáveis, são sedentários, consomem álcool, outros são tabagistas. Nem todos são lúcidos e ativos. Entretanto, passaram dos 100 anos. A gente atribui isso a um caráter genético”.

Mateus Vidigal conta que o interesse da equipe pela “genética do envelhecimento” data 2017, quando, ainda em seu projeto de pesquisa, o plano era comparar pessoas que chegaram ao centenário com qualidade de vida com as que também atingiram, mas com problemas de saúde. A covid-19 mudou os rumos da investigação, que buscou centenários infectados pela doença. “Por conta do contexto pandêmico, estudamos a resiliência por trás de uma doença tão grave nessa faixa etária. Em 2020, ninguém havia sido vacinado. Então, a gente estava estudando uma resiliência natural daquele indivíduo que passou dos 100 anos”, diz. 

Entre os participantes da pesquisa, destaca-se a freira Inah Canabarro Lucas, ou apenas irmã Inah, reconhecida pelo LongeviQuest como a pessoa mais velha do mundo de 29 de dezembro de 2024 até sua morte, em 30 de abril de 2025, aos 116 anos. O estudo também inclui um caso familiar centenário de uma mulher de 109 anos, com sobrinhas de 100, 104 e 106 anos — o que as configura como uma das famílias mais longevas registradas na história do Brasil. A irmã do meio, Laura de Oliveira, começou a nadar depois dos 70 anos e é recordista sul-americana.

O pesquisador observa que, mesmo com os resultados da pesquisa sendo preliminares, dois padrões já se destacam: mulheres vivem mais do que homens e indivíduos de menor estatura aparentam ter maiores chances de viver mais, principalmente as mulheres. 


Atualmente, o grupo está recrutando voluntários com cem anos ou mais que gostariam de fazer parte da pesquisa. Interessados podem entrar em contato pelo e-mail: dnalongevo@usp.br.

Mais informações: mayazatz@usp.br, com Mayana Zatz; mateusvcastro@gmail.com, com Mateus Vidigal, e jplfguilherme@hotmail.com, com João Paulo Guilherme.

 

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